Muitas panificadoras em Curitiba não produzem mais o pão d’água. Preferem comercializar o pão “francês” – escrito assim, entre aspas, para lembrar que este tipo de pão não é conhecido na França. O fato expõe mais uma tradição e um signo da nossa identidade regional, lentamente, desaparecendo.

Assim como os bens materiais, os bens imateriais, como aqueles relacionados as tradições culinárias e gastronômicas, também constituem um patrimônio cultural que deve ser preservado. Não só pela responsabilidade devida ao passado, mas também, e principalmente, pela nossa responsabilidade com relação ao futuro.

O descaso com estas questões, põe a perder grandes oportunidades. Não apenas as do tipo simbólico, mas concretas, resultantes de ações planejadas com o objetivo de desenvolvimento econômico. Neste sentido, algumas iniciativas francesas servem de exemplo e merecem registro e reflexão.

Anualmente, no mês de maio, na praça localizada em frente da igreja de Notre Dame, em Paris, a Confédération Nationale de la Boulangerie-Pâtisserie Française (Confederação Nacional das Panificadoras-Confeitarias Francesas) promove, com o apoio da Prefeitura de Paris, La Fête du Pain (A Festa do Pão). Durante uma semana, sob uma grande tenda de lona, montada na praça, dezenas de padeiros se reúnem para, a vista do público, produzirem e distribuírem vários tipos de pães e produtos similares. A mesma confederação realiza, também anualmente, o Concours Master National de la Baguette de Tradition Française (Concurso Mestre Nacional da Baguete de Tradição Francesa).

Da mesma forma, a Chambre Professionnelle des Artisans Boulangers Pâtissiers de Paris (Câmara Profissional dos Artesãos Panificadores e Confeiteiros de Paris) realiza anualmente um concurso para a escolha da melhor baguete de Paris. Como prêmio, o vencedor fornece, por um ano, pães para o Palácio do Eliseu, sede do Governo da França. Para vencer, a baguete deve ter entre 55 e 65 centímetros, pesar entre 250 e 300 gramas e possuir um teor de sal de 18 gramas por quilo de farinha. São critérios de julgamento a cocção, o sabor, a crocância, o perfume e a aparência.

Não é à toa, portanto, que a baguete seja um dos símbolos culturais da França, um produto importante como promotor do turismo, além de influir em muitos outros aspectos da economia francesa.

Eventos similares, envolvendo culinária e gastronomia, acontecem aos milhares pelo mundo, todos os anos. Muitos no Brasil. Fazem parte de uma estratégia que tem no culto das tradições seu maior valor e justificativa, enquanto são os benefícios econômicos sua grande motivação. Demonstram que a forma de preparo de comidas e bebidas estabelece fronteiras identitárias, diferenciando os grupos sociais e, igualmente, seus países, estados e cidades. Como consequência, estabelecem vínculos do passado com o presente pela afirmação de valores históricos e culturais.

A origem do pão se perde no tempo. A história do pão d’água ainda precisa ser escrita. É fato que o pão “francês” e o pão d’água são feitos com ingredientes semelhantes e se diferenciam apenas pela forma. Mas, é, justamente, a forma que faz toda a diferença. Afinal de contas, esse é um blog também sobre design e o design do pão d’água é campeão. Não acredita? Então confira como é fácil consumir apenas meio pão d’água ou um pão d’água e meio. Por outro lado, um eventual concurso para a escolha do melhor pão d’água só teria sentido, se o respeito ao seu design fosse uma das exigências.

Da minha parte, vou continuar comprando nas panificadoras que produzem o legítimo pão nosso, o pão d’água. Enquanto isso, espero dos sindicalistas e políticos locais, a exemplo dos franceses, uma justa mobilização em festejo e defesa do pão d’água. Todos juntos para repartir este pão.

Vídeo editado com imagens obtidas em maio de 2010, com uma câmera Kodak Zi8. Trilha sonora: Hallon, composição de Christian Bjoerklund, disponível em: freemusicarchive.org